Descobrindo o Talkback, por um usuário de VoiceOver – parte 1

Salve, galera! 

Convido a todos a entrarem comigo em uma aventura, sob a forma de uma série de artigos e eventuais podcasts pelo meio do caminho.

Durante essa série, eu vou desbravar a fundo as possibilidades excitantes que a plataforma Android com o uso do leitor de telas TalkBack nos disponibiliza e te convido a vir comigo. A Atena sacana já pulou fora, mas você, que é mais gente boa, topa? 

Ótimo! Vamos então, em um papo de usuário para usuário, explorar o TalkBack e o Android sob o ponto de vista de alguém que conhece tecnologia assistiva, mas não conhece esse sistema operacional, nem o seu principal leitor de telas.

Bate-papo

Mas, antes de começar, vamos conversar sobre algumas coisinhas. Teremos muitos artigos adiante, e acho bem importante eu e você definirmos bem as cartas que estarão na mesa.

Quem teve a oportunidade de acompanhar o surgimento do portal BlindTec ou me conhece pessoalmente, sabe que sou um aficionado por tecnologia asssistiva. Isso, entretanto, está longe de significar que eu seja um especialista no assunto. 
De fato, há atualmente tantas ramificações dentro desta área que eu posso dizer, com razoável certeza, que ninguém domina esse posto. 

Mas, me perguntariam os leitores, qual a razão de começar um artigo com tamanha digressão? 
Como resposta, solicito minhas desculpas. Se você não conhece o portal BlindTec, é muito importante que tome ciência de alguns fatos antes de prosseguir
com a leitura. 

Uma de nossas premissas é não emitirmos opiniões diretas e taxativas nos artigos e podcasts disponibilizados no Portal . Queremos que nossos ouvintes e leitores, acima de qualquer coisa, tenham condições de construir suas próprias opiniões sobre os assuntos que aqui apresentamos.
Contudo, sabemos que temos conhecimentos que podem ajudar os leitores a formar opiniões mais conscientes sobre determinadas questões. Como sempre digo,
seja qual for a opinião que você tiver ou a decisão que você tomar, se levar em consideração os pontos abordados nos nossos artigos então terá sido uma opinião ou decisão consciente e teremos atingido o nosso objetivo. 

Para mais detalhes de como falamos sobre assuntos polêmicos, o artigo sobre atualizar para o iOS 9 e o podcast sobre o leitor de BIOS demonstram claramente o estilo da nossa abordagem.

Acessibilidade móvel 

As pessoas com deficiência visual foram muito impactadas positivamente pela tecnologia móvel, a partir de soluções de acessibilidade para celulares com sistema operacional Symbian e, especialmente, para os dispositivos que rodam o sistema operacional da Apple, o IOS.

A quantidade de aplicações específicas que passaram a integrar os dispositivos Apple transformou as vidas de deficientes visuais, permitindo que se localizassem, procurassem ajuda remotamente através de chamadas de vídeo, reconhecessem imagens, entre outros. Também foram úteis muitas aplicações genéricas. Dentre elas, aplicativos de mobilidade urbana tais como o Uber e o 99Taxis e aplicações de redes sociais e
mensageria que ajudaram uma maior integração de deficientes visuais com o restante da sociedade, já que esses aplicativos eram muitas vezes mais acessíveis e principalmente mais usáveis do que seus equivalentes para internet ou desktop. 

Por fim, novos mercados como o de publicações eletrônicas também tiveram grande impacto na vida de pessoas cegas, já que agora se tornou possível ter acesso de maneira fácil e acessível à revistas, livros e outros tipos de publicações ao mesmo tempo em que os demais usuários o fazem.

A Apple e sua Importância

De maneira sucinta, dois dos fatores que historicamente mais contribuíram internacionalmente para a popularização dos dispositivos móveis entre deficientes visuais estão profundamente relacionados com a Apple:

  1. O desenvolvimento de um leitor de telas, chamado VoiceOver, de excelente qualidade, que criou uma maneira de deficientes visuais acessarem interfaces gráficas touch.
  2. A integração desse leitor de telas no cerne do sistema operacional iOS. Esse aspecto específico levou a performance do VoiceOver a níveis quase inimagináveis de excelência e integrou o seu custo no valor total do produto, fazendo com que os usuários deficientes visuais não precisassem pagar a mais pela tecnologia assistiva da qual necessitavam.

A consequência disso é que um iPad mais um teclado bluetooth juntos são, por exemplo, mais baratos do que apenas o custo de uma cópia de leitor de telas comercial para Windows, sem levar ainda em conta o custo do computador, o que fez com que um número expressivo de deficientes visuais, principalmente nos mercados desenvolvidos, substituíssem quase que completamente as suas soluções de tecnologia assistivas anteriores por um iPhone ou iPad.

Situação atual 

Mas nem tudo são alegrias. Apesar da Apple ainda ser, em minha opinião, a grande referência em termos de acessibilidade para deficientes visuais usando tela touch, precisamos começar a olhar um pouco mais adiante se quisermos fazer uma análise mais completa do cenário atual e das tendências para os próximos anos.

Para iniciar a reflexão, vamos abordar somente dois potenciais problemas que afetam o uso da plataforma e a plataforma em si própria:

política e economia

Para falar somente da Terra Tupiniquim, as condições políticas e econômicas têm decaído significativamente por aqui. Na tentativa de defender a indústria nacional, o governo tem adotado medidas que estão elevando o custo dos produtos importados, bem como tem dificultado para os brasileiros as compras no exterior.

Além disso, instabilidades políticas impulsionam a fuga de dólares do país, o que aumenta ainda mais a cotação da moeda norte americana.
 Por outro lado, mesmo se a situação se tornar mais estável, o governo tende a desvalorizar a moeda local afim de favorecer as exportações para que se consiga um equilíbrio na balança comercial ao gerar mais receitas entrando no país. 

Para não nos alongarmos mais sobre economia, por hora, é o suficiente sabermos que os produtos da Apple, que já eram bem caros quando a situação política e econômica no país eram mais estáveis, tendem a ficar ainda mais inacessíveis a partir de agora. 

Considerando que aparelhos da Apple com o uso de leitores de tela costumam aguentar, em minha experiência, cerca de duas a três atualizações de sistema operacional sem
cair demasiadamente de desempenho, depois de aproximadamente 3 ou 4 anos fica custoso continuar a usufruir da plataforma sem trocar o dispositivo. 

Assim, se pensarmos que:

  1. As atualizações no VoiceOver ocorrem apenas a cada atualização do sistema, não sendo possível lançar versões intermediárias do leitor de telas
  2. As novas versões do iOS levam sempre em consideração os recursos dos aparelhos lançados junto com a atualização do sistema e, portanto, a cada atualização os aparelhos antigos têm mais dificuldades em desempenhar de maneira satisfatória, chegando eventualmente a um limite
  3. Assim, não é possível obter importantes avanços e correções de bugs de acessibilidade sem impor ao aparelho que rode uma nova versão do sistema inteiro
  4. usuários atuais poderão ter problemas para atualizar os seus iDevices, já que a compra de um novo pode se tornar cada vez mais difícil
  5. novos usuários terão restrições para conseguir comprar produtos Apple e, portanto, poderão ser privados da acessibilidade que esses aparelhos oferecem

fica lógico entender que optar pela Apple como a única real alternativa para solução de acessibilidade móvel começa cada vez mais a deixar de ser viável.

Cultura Apple

Como a plataforma Apple é fechada, sem possibilidade de modificações por parte dos usuários da comunidade, a acessibilidade nos seus aparelhos pode se deteriorar a qualquer nova release de sistema, sem que ninguém consiga fazer nada a respeito.
Como a Apple impede que usuários retornem ao sistema anterior, a sensação de pânico e desespero frente a qualquer atualização que possa potencialmente
quebrar algum recurso importante e essencial para quem depende de acessibilidade já se tornou companheira de usuários de iPhones, iPads e etc.

Nos últimos anos, usuários Apple notaram claramente uma instabilidade, principalmente no fator de garantia da qualidade, das implementações de tecnologia assistiva da empresa da maçã.
Muitos bugs foram introduzidos e, com quanto alguns deles tenham sido corrigidos ** mais sedo ou mais tarde ** em atualizações do sistema, a empresa nunca deu e continua a não dar qualquer visibilidade sobre quais bugs são conhecidos, quais serão ajustados e quando isso ocorrerá.
Essa cultura, de não envolver um grande número de usuários em testes, não abrir tickets que podem ser acompanhados com planejamento conhecido para a resolução de bugs e de não ouvir usuários antes de fazer mudanças significativas em fatores como comportamento do leitor de telas, adoção de novas vozes para o leitor e outros aspectos relevantes não somente nos preocupa o suficiente, mas também coloca um outro aspecto em pauta: o que irá acontecer se e ou quando a direção da Apple decidir não investir mais em acessibilidade?

Por não ser o Voiceover de código aberto e pela comunidade pouco ou nada influenciar nas decisões da empresa da Maçã, essa é uma pergunta que tem assolado meus pensamentos todos os dias.

Conclusão

Sou um usuário Apple feliz e realizado, mas como analista de tecnologia assistiva e editor chefe do portal BlindTec chegou o momento de começar a investigar outras plataformas, soluções e perspectivas.
Sinta-se, portanto, meu convidado para prosseguirmos juntos nessa jornada. No próximo artigo, começaremos a desbravar os potenciais problemas e soluções da plataforma Android, a qual tem grandes chances de se tornar a alternativa mais razoável no que diz respeito à tecnologia assistiva móvel para os próximos anos.

© Copyright BlindTec 2016 - 2019, todos os direitos reservados.
Para mais detalhes, consulte a página de direitos autorais do portal.
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